Servidão Voluntária
Excertos
Servidão Voluntária
Todos os males decorrem da perda da liberdade. Sem esta, todos os bens perdem o gosto e o sabor, corrompidos pela servidão.
Etienne La Boétie na sua obra define três tipos de tiranos;
· O primeiro tirano chega ao poder por direitos de hereditariedade pode ser filho de um monarca, de um rei.
· O segundo tirano atingiu o poder através das armas, através da guerra.
· E o terceiro tirano atinge o poder por decisão do povo e ao chegar ao poder ele decide que é dono daquele poder por direito e então ele resolve delegar o poder a um herdeiro seu.
Este último é o mais perigoso e segundo ele as pessoas estão sob o poder dum tirano por hábito, cobardia ou por participação na tirania.
Pela cobardia as pessoas aceitam ajudas financeiras, aceitam bebidas, aceitam entretenimento, a lógica do pão e circo romano o que chama mais atenção é que as pessoas participam nela.
As pessoas ao participarem nela podem fazer uso de algumas benesses que o poder oferece.
O tirano por si só se anulará, o tirano não é amado o tirano não ama ninguém e ele está só, basta que povo ao invés de lhe tirar o poder não lhe preste a sua servidão.
Mas a servidão não é imposta. Ela é voluntariamente dada aos tiranos. Bastaria que, diante da escolha entre ser servo e ser livre, optassem por não aceitar a sujeição.
O jovem Etienne La Boétie estudante de direito e filósofo do século XVI, na sua obra diz; para deixar este estado de submissão, os súbditos não precisam combater o tirano. Ele será anulado simplesmente pelo facto de não ser servido. Não é preciso fazer nada, mas apenas não trabalhar para sua própria ruína. Perante a escolha entre a servidão e a Liberdade, não aceite a canga.
Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados, não por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um simples mortal, cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deveriam prezar porque os trata desumana e cruelmente.
Tal é a fraqueza humana, somos obrigados a contemporizar, não podemos ser sempre os mais fortes.
Citando Fábio Konder Comparato
Os súbditos não precisam combater os tiranos nem mesmo defender-se diante deles. Basta que se recusem a servi-los, para que eles sejam naturalmente vencidos. Uma nação pode não fazer esforço algum para alcançar a felicidade. Para obtê-la, basta que ela própria não trabalhe contra si mesma. “São os povos que se deixam garrotear, ou melhor, que se garroteiam a si mesmos, pois bastaria apenas que eles se recusassem a servir, para que os seus grilhões fossem rotos”.
Etienne La Boétie aponta algumas causas: o costume tradicional, a degradação programada da vida colectiva, a mistificação do poder, o interesse.
Por fim, a última causa geradora do regime de servidão voluntária, aquela que La Boétie considera “ o segredo e a mola mestra da dominação, o apoio e fundamento de toda a tirania”, é a rede de interesses pessoais, formada entre os serviçais do regime. Em degraus descendentes, a partir do tirano, são corrompidas camadas cada vez mais externas de agentes da dominação, mediante o atractivo da riqueza e das vantagens materiais.
Pois bem, se voltarmos agora os olhos para este “ Portugal”, veremos um espectáculo bem diverso daquele que nos fascina, hoje, no Médio Oriente. Aqui, o povo parecia não ter a menor consciência de ser explorado e consumido. As nossas classes dirigentes, perfeitamente instruídas na escola do capitalismo, nunca mostram suas fuças na televisão. Deixam essa tarefa para seus aliados no mundo político. Elas são anónimas como a sociedade por acções. E a dominação que exercem é insinuante e atraente como um anúncio publicitário.
Como diria Hannah Arendt, no livro “A condição Humana”: “Os homens podem perfeitamente viver sem trabalhar, obrigando a outros a trabalharem por eles; e podem muito bem decidir simplesmente usar e fruir do mundo das coisas sem lhes acrescentar um só objecto útil; a vida de um explorador ou senhor de escravos ou a vida de um parasita pode ser injusta, mas nem por isso deixa de ser humana. Por outro lado, a vida sem discurso e sem acção – único modo de vida em que há sincera renúncia de toda a vaidade e aparência na acepção bíblica da palavra – está literalmente morta para o mundo; deixa de ser uma vida humana, uma vez que já não é vivida entre os homens” (página 189, capítulo V, AÇÃO, Editora Forense Universitária, 10ª Edição).
Estes engrumes servem-se da astúcia dos que querem manter seus interesses intactos e preservados e atascam-se com a apatia daqueles que não têm vontade de ser livres.
Por estas bandas o povo vive tranquilo e feliz, na podridão e na miséria.
JAA